O começo da história do jazz

Em outra matéria, abordamos orquestras sinfônicas… o tema da vez é o gênero musical mais sexy de todos: o jazz! É uma tarefa difícil apontar o início exato da história do jazz. Por definição, o gênero envolve improvisação e livre expressão. Seu surgimento não foi concreto, e sim, espontâneo. 

O jazz foi originalmente uma mistura de influências da África e da Europa. Os escravos africanos levados aos Estados Unidos, colônia inglesa, desenvolveram uma síntese cultural com as tradições musicais locais. Na África, a qualidade da música era mais funcional do que artística. Rituais de fertilidade, de religião e de trabalho envolviam a expressão musical.

Nos ingredientes fundamentais do jazz, os africanos contribuíram com:

Os ritmos característicos, especialmente a polirritmia (mais de um ritmo sendo desenvolvido ao mesmo tempo durante a música);

  • O expressionismo vocal (afastamento da estrutura mecânica da música, dando abertura à livre expressão com os instrumentos e vozes).

Os americanos (de estilos musicais importados da Europa) forneceram as harmonias da escala pentatônica e sua convencional estrutura melódica. É importante destacarmos a ‘blue note’ (nota azul), uma nota usada nas escalas do jazz que garante a emoção doce-amarga do gênero. É daí que também parte o blues, outro gênero que cresceu lado a lado com o jazz, facilmente confundindo-se entre si.

Buddy Bolden

A banda de ragtime de Buddy Bolden (1905)

Há personalidades que concorrem pelo título de ‘fundador do Jazz’. Buddy Bolden e Jelly Roll Morton são frequentemente citados como pioneiros. Bolden é talvez o mais importante: um sofredor nato, criou o arquétipo essencial do jazz, o herói romântico frustrado.

É impossível sabermos exatamente como era a música de Bolden. O músico sofreu um colapso mental em 1907, aos 30 anos de idade, e passou o resto de sua vida em um asilo. Isso tudo antes das tecnologias de gravação musical serem popularizadas. Seu jazz nunca foi gravado. No entanto, suas performances inspiraram jovens que um dia entrariam no mundo da música e se tornariam lendas da história do jazz.

Explosão de jazz

O lendário Django Reinhardt, que tocava jazz mesmo perdendo o movimento de dois dedos da mão esquerda (1946)

O jazz ganhava popularidade e evoluía vários anos antes de ser gravado. Um dos pontos fortes do jazz é sua mutabilidade. Cada artista poderia desenvolver sua própria expressão de jazz incorporando elementos únicos e diferentes.

“Jazz” era escrito com S em seus primórdios. A palavra ‘jass’, por vezes até ‘jas’, nunca possuiu uma etimologia tão clara: era uma gíria que fazia referência sutil ao espírito de vigor, de sexualidade, de gingado.

A Original Dixieland Jass Band realizou a primeira gravação de jazz em 1917, que vendeu mundialmente e deu início a uma febre global pelo jazz. A partir daí, o jazz decolava como cena artística aberta aos exploradores musicais.

Gênios musicais

Louis Armstrong

Louis Armstrong, a voz da inesquecível ‘What a Wonderful World’ (1946)

O jazz foi responsável por produzir alguns dos maiores músicos de todos os tempos. O músico demonstra sua grandiosidade quando, ao explorar os sons, consegue evocar emoções de maneira genuína e intensa.

Foi exatamente isso que Louis Armstrong fez. Talvez o maior nome do jazz, comprou sua primeira corneta por dez dólares em uma loja de usados em Nova Orleans quando era criança. O garoto tocava por trocados na rua até ser descoberto por Joe “King” Oliver, grande músico da cidade. Louis entrou para a banda de King e seu expressionismo único traçou seu caminho para a fama.

Sua voz rouca e seus solos de trompete se tornaram ícones globais do jazz. O músico foi figura central no desenvolvimento artístico do gênero, introduzindo uma riqueza emocional e pessoal nas melodias do jazz.

Em 1958, o jazz atingiu seu absoluto ápiceKind of Blue, de Miles Davis, foi lançado – reconhecido por críticos como um dos álbuns mais importantes da história da música. A obra reuniu gênios que, em duas sessões de gravação, produziram 45 minutos de jazz modal divino. O jazz modal se caracteriza por tons e solos baseados no tom geral, mudando sutilmente a todo tempo.

Kind of Blue emana a essência do jazz. É pura elegância e emoção em improvisação. Miles Davis não era o único músico lendário a participar: o disco contou com John Coltrane, o maior sax tenor de todo o jazz, e Paul Chambers, um dos maiores contrabaixistas de jazz, além de outros grandes talentos. Todos os participantes seguiram carreiras espetaculares.

Reinvenções

Duke Ellington

Duke Ellington em frente a seu piano (aprox. 1930)

O jazz foi explorado de muitas maneiras diferentes. Miles Davis aperfeiçoou o jazz modal. Duke Ellington compôs obras-primas de jazz complexas (porém acessíveis) que emanavam drama, tornando-se também um dos grandes nomes do jazz. Assim como a maioria dos gêneros musicais, o jazz passou por renovações totais conforme a música, como um todo, evoluía.

John Coltrane, prosseguindo em sucesso, lançou outro disco monumental na história do jazz, A Love Supreme. Charles Mingus comandou as vanguardas do jazz com The Black Saint and the Sinner Lady, uma composição atemporal com pianos que evocam imagens misteriosas.

Nos anos 70, a história do jazz foi marcada pela desenfreada absorção de influências de outros gêneros. Nascia o jazz-rock ou jazz fusion, que absorve influências de R&B, rock e música latina.

O rock, filho dos Beatles, estava em sua infância. Carla Bley, música espetacular, ouviu o disco Sgt. Pepper’s, dos quatro meninos, e lançou o monumental álbum duplo Escalator Over the Hill, inspirado no rock.

Já Miles Davis introduziu o caos em sua música, lançando o indispensável Bitches Brew, que marcou definitivamente a história do jazz como prova da gama artística absurda que o gênero tinha a explorar.

Daqui em diante, o jazz nunca foi o mesmo. Com a comercialidade do rock em alta, o jazz adotou muitas de suas características. Isso não necessariamente é algo ruim: nestes meados o gênio da música e da comédia Frank Zappa lançou Hot Rats, uma divertidíssima viagem por acordes de jazz e melodias de guitarra.

Legado

Nenhum gênero musical mantém a sua pureza para sempre. O jazz sempre foi uma caixinha de surpresas. O gênero hoje é um resgate do passado – um replay de sua antiga essência. Sempre confundido com o blues, hoje quase sinônimo: artistas como John Mayer incorporam elementos tradicionalíssimos a músicas pop que agitam multidões.

O nascer do modernismo e pós-modernismo na arte permite também que o jazz genuíno continue a ser explorado mesmo depois de seu advento definitivo. John Zorn, em 1990, ícone da vanguarda do jazz, conseguiu o inacreditável, impensável feito de unir grindcore (uma das vertentes do heavy metal extremo) ao jazz, no disco Naked City.

É possível dizer categoricamente que o jazz não está morto, apenas foi explorado com criatividade exorbitante durante toda sua existência. Portanto, daqui em diante, todo jazz de qualidade é provavelmente uma exploração inédita.

Jazz, de certa forma, deixou de ser apenas um gênero musical. É uma maneira de se expressar, uma forma única de enxergar paixões, desilusões e de encontrar conforto em noites escuras. O jazz é sentimento!

Fontes

http://www.bbc.com/culture/story/20170224-the-mysetrious-origins-of-jazz

http://www.jazzinamerica.org/LessonPlan/5/1/249

https://medium.com/cuepoint/the-eloquent-firing-of-charles-mingus-by-duke-ellington-a20dc350e4fa

https://www.theguardian.com/music/series/a-history-of-jazz

https://www.theguardian.com/music/2011/jun/17/buddy-bolden-invents-jazz

https://www.theguardian.com/music/2011/jun/17/louis-armstrong-buys-cornet

https://www.theguardian.com/music/2011/jun/17/miles-davis-kind-of-blue

https://www.theguardian.com/music/2011/jun/17/charles-mingus-black-saint-sinner-lady

 

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