Porgy and Bess: americana raiz

A ópera Porgy and Bess, icônica e controversa, brilhou com seus traços de jazz. É um dos mais ricos exemplos da expressão artística americana, e uma das óperas mais reconhecidas dos Estados Unidos. Muitos críticos consideram-na a primeira ópera estadunidense, relevando sua autenticidade americana e sua grandiosa qualidade.

A obra foi muito ousada por desafiar a segregação racial e o elitismo nas artes: o elenco era quase totalmente composto por negros, e a temática da obra buscou totalmente sua inspiração na vivência afro-americana.

Escrita pelo renomado George Gershwin com libreto por DuBose Heyward e Ira Gershwin, foi uma adaptação da peça Porgy, de Heyward (por sua vez uma adaptação de seu romance homônimo de 1925).

Sinopse

A narrativa da obra se passa em um bairro afro-americano de Charleston, a Catfish Row. A bela Bess é uma mulher que tenta arduamente se afastar de seu passado como prostituta e viciada em cocaína. Após um assassinato, seu parceiro, Crown, desaparece e a abandona, deixando-a à mercê de uma comunidade abusiva e de um traficante sedutor conhecido como Sportin’ Life.

Bess acaba conhecendo Porgy, um mendigo deficiente físico, e gradualmente estabelece um relacionamento com ele, colocando tudo à prova. Bess passa a ganhar a aceitação da Catfish Row – até que um furacão atinge a comunidade, e seu parceiro abusivo acaba reaparecendo. A vida de todos passa por uma reviravolta.

Criando uma ópera

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 George Gershwin, autor de Porgy and Bess

A peça estreou em 1935 no Alvin Theatre, em Nova York, antes de se incorporar à Broadway.

Para escrever a obra, Gershwin se mudou para uma ilha próxima a Charleston, na Carolina do Sul, para familiarizar-se com o dialeto afro-americano. Inspirado, conseguiu finalizar a composição em apenas um ano.

Apesar do sucesso de Gershwin na produção da obra, foi difícil lançar Porgy and Bess devido à dificuldade em encontrar o equilíbrio definitivo entre jazz e ópera. Estava claro que os fãs de jazz não se sentiriam confortáveis com o tom sério da obra, e os patronos da ópera não estavam preparados para um elenco negro.

Produtores da Broadway insistiam para que Gershwin contratasse atores brancos em ‘blackface’ para fazer os papéis. O autor resistiu e conseguiu manter o elenco negro, e a peça foi lançada, mas não foi uma vitória comercial.

Resultados e controvérsia

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Imagem: Ealmagro – Trabalho próprioGFDLLink

Porgy and Bess, apesar do renome de seu autor, não conseguiu nem mesmo cobrir seus próprios gastos. Gershwin só obteve lucros com o sucesso de algumas canções da ópera, como ‘Summertime’.

A obra foi ora endossada, ora criticada pelo movimento negro. Foi admirada por representar a vanguarda dos afro-americanos na arte, além de finalmente garantir-lhes representação no meio. Porém, alguns críticos desaprovaram dos estereótipos empregados pelo autor. Segundo eles, era imparcial continuar retratando a vivência negra como violenta e decadente.

Porgy and Bess ficou no esquecimento por anos, mas acabou ganhando o coração dos Estados Unidos nas décadas de 40 e 50. A ópera ganhou várias renovações, reaparecendo na Broadway e consolidando-se como peça indispensável na cultura americana.

A canção ‘Summertime’, gravada inúmeras vezes por todo o mundo artístico, já recebeu interpretações de Janis Joplin, John Coltrane, The Zombies, Billy Stewart… é talvez a maior ‘música de cover’ de todos os tempos.

Legado

Porgy and Bess ganhou até mesmo uma versão do mito do jazz, Miles Davis, em uma hora gloriosa de harmonias de sopro.

Com as mudanças sociais, vieram as mudanças na ótica (e nas versões da obra, que chegaram a ter os jargões racistas eliminados): a representação da decadência em Charleston deixou de ser um insulto aos negros e passou a ser uma exposição da realidade cruel da época.

Escrita por um homem branco de origens judaicas, vitalizada pela comunidade negra. Uma exploração folk ousada no cenário da ópera, uma expressão do jazz jamais antes vista. Porgy and Bess é uma das mais importantes óperas americanas do século XX.

A ópera estará presente no festival Música em Trancoso 2018.

Fontes

https://www.loc.gov/item/today-in-history/september-02
https://www.broadway.com/shows/porgy-and-bess/story/
http://www.postandcourier.com/features/arts_and_travel/the-controversies-of-porgy-and-bess/article_af44d384-2b59-52c2-a4c7-a07602b663f6.html
http://www.nytimes.com/2012/01/22/opinion/sunday/nocera-in-porgy-and-bess-variations-on-an-explosive-theme.html?_r=1
https://www.neh.gov/humanities/1997/novemberdecember/feature/the-tumultuous-life-porgy-and-bess

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